ZAAP!
desde outubro do ano passado, estou fazendo algumas entrevistas e reportagens para a
ZAAP!, uma revista nova aí no mercado, que prioriza a informação. É um projeto bacana e o que é melhor: deu-me a oportunidade de voltar a exercitar a escrita. Na última edição, fiz uma entrevista com o bispo dom Paulo Mendes Peixoto. Vou publicá-la aqui, no blog, mas ela também pode ser vista nas próprias páginas da revista e até no blog
Eleições de Rio Preto. Vou ver se resgato as anteriores e também publico aqui. Aproveitem!
Dom Paulo Mendes Peixoto
Um operário de Deus no combate à corrupção
A campanha eleitoral deste ano será acompanhada de perto pela Igreja Católica. Não serão tolerados abusos e candidato que estiver ultrapassando os limites da legalidade será denunciado. Em entrevista exclusiva à
ZAAP!, o bispo diocesano de São José do Rio Preto, dom Paulo Mendes Peixoto, diz que a Igreja terá papel ativo nestas eleições. É que a Igreja Católica está liderando o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral.
A campanha contra a corrupção está colhendo assinaturas em todo o Brasil para alterar a Lei 9.840, que visa dar mais eficácia à Justiça Eleitoral na sua ação para coibir o crime da compra de votos e o uso da máquina administrativa. Na nova versão, busca-se impedir que condenados por crimes graves ou políticos que renunciaram para evitar a cassação possam se candidatar. Ou seja, impedir que aquele que tem ficha suja possa disputar o pleito.
A campanha já começa a dar resultado. No último dia 8 de julho, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou o projeto de lei complementar que torna inelegível candidato com ficha suja na Justiça. Segue agora para votação no Plenário.
Dom Paulo Mendes Peixoto, 57 anos, é bispo da Diocese de Rio Preto, desde 25 de março de 2006. Ele é nascido na cidade de Imbé de Minas, em Minas Gerais. Veio da Diocese de Caratinga (100 mil habitantes). Foi ordenado pároco em 1979. São 28 anos de ordenação (26 anos de padre e dois, de bispo). Trabalhou em 11 paróquias diferentes. É de uma família de 14 irmãos.
Atualmente, lidera uma legião de fiéis que representam 70% da população desses 50 municípios, que fazem parte da Diocese, que congrega 90 paróquias, sendo 37 só em Rio Preto. Tem 106 padres sob seu comando. No próximo dia 16, às 20 horas, lança sua biografia, “Operário de Deus”, escrita por Donizeti Della Latta, no Ipê Park Hotel. Dom Paulo tem uma visão muito clara sobre política. Para ele, é uma esfera de autonomia do Estado, mas a Diocese se sente no dever de orientar a consciência cristã e clamar pelo voto consciente.
ZAAP! – O que é exatamente essa campanha que a Igreja está fazendo de combate à corrupção eleitoral?
Dom Paulo Mendes Peixoto – Primeiro, nós precisamos dizer que a campanha não é propriamente uma campanha da Diocese. É uma campanha nacional, com o apoio de diferentes movimentos. Entre eles, está a CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil), a Cáritas Diocesana, a CUT (Central Única dos Trabalhadores). É um projeto de lei de iniciativa popular, sobre a vida pregressa dos candidatos.
ZAAP! - E como tem sido a aceitação desse movimento?
Dom Paulo – O corpo que tem tomado, a abrangência, com tanta rapidez, tem revelado a insatisfação do povo com esse momento político e com a corrupção que tem havido na área política. Outra coisa. Eu diria que a campanha de coleta de assinaturas não é uma novidade, porque já houve isso no passado e surgiu a Lei 9.840, contra a corrupção eleitoral. Sinal que a preocupação da Igreja e dessas entidades em nível social, entidades que estão preocupadas com o bem do País, com o bem-comum, vem acontecendo há tempos. Assim, a Lei 9.840 foi uma lei que foi aprovada rapidamente, por causa da pressão popular.
ZAAP! – E desta vez a coleta de assinaturas também está em ritmo acelerado?
Dom Paulo – Muito acelerado. As entidades todas estão incorporando. Basta a gente ver aí a disposição do Diário (jornal Diário da Região), que já de início se colocou à disposição, com um estande lá na praça, para a coleta de assinaturas. Sinal de que está revelando uma insatisfação popular muito grande com políticos envolvidos em corrupção se colocando novamente como candidatos e até ganhando, estando à frente da direção do País.
ZAAP! – Mas a Igreja não deve se restringir a colher assinaturas nestas eleições. Vai orientar? O que mais vai fazer?
Dom Paulo – Neste momento, pelo menos a nossa Diocese, por meio da Pastoral Fé e Política, vai estar orientando os eleitores sobre a sua responsabilidade do voto consciente. Mas também orientando sobre a cobrança diante de atitudes de corrupção na campanha eleitoral. Sabendo de candidatos corruptos, que haja denúncia. Então, um dos papéis da Pastoral Fé e Política e dos órgãos que estão ligados contra a questão da corrupção é realmente apresentar denúncia de casos verídicos, de casos que sejam verdadeiros e não criar situações para dificultar para o candidato.
ZAAP! – Então, a própria Pastoral poderá fazer a denúncia? Ela não ficará simplesmente observando o processo eleitoral?
Dom Paulo – Ela vai tomar uma atitude. Não adianta fazer a campanha e não agir. Por outro lado, a Igreja quer facilitar a comunicação dos candidatos com seus fiéis. Nós vamos entregar aos padres uma orientação sobre o momento político e nas orientações práticas estamos colocando assim no documento que vamos entregar aos padres: “A Igreja não tem partido, mas quer facilitar a comunicação dos candidatos com seus fiéis, desde que não seja usado o interior das igrejas e capelas”.
ZAAP! – Então, como seria? A Igreja criará mecanismos para facilitar esse acesso aos candidatos?
Dom Paulo – Isso. Até colocando o espaço do salão paroquial para criar esses debates, para conhecimento dos projetos e da vida do candidato e também do partido. Mas usar o púlpito para fazer campanha não é permitido. Já apresentar seus projetos em reuniões fora da igreja tudo bem. A Igreja quer estar ajudando também no processo. Alguém pode falar assim: a Igreja tem de cuidar do lado espiritual das pessoas. Não. A Igreja tem de cuidar da pessoa e a pessoa não é só espírito. Uma pessoa é corpo e alma.
ZAAP! – Qual seria o perfil do candidato ideal para a Igreja?
Dom Paulo – Em primeiro lugar, não basta ser religioso ou católico. O perfil seria aquele que coincide com a vida dele (do candidato), conhecer bem a história de vida política dele, observando seu passado e seu presente.
ZAAP! – Mas a Igreja não vai orientar, dizendo que o candidato deve ser uma pessoa que tenha seus olhos voltados para...
Dom Paulo – Sim e, por isso, ela quer abrir seus espaços para conhecer os projetos. Vamos dizer para não votar em candidatos que ofereçam vantagens pessoais e favor em troca de voto. Isso aí não deve fazer parte do perfil. A gente sabe que nesta eleição, por exemplo, será uma dinheirama que vai ser jogada em cima do povo. Estou sabendo disso. Entendeu? Então, pessoas que compram o voto não merecem o voto do eleitor. Ele tem de apresentar um estilo de vida que dê segurança para o eleitor. No fundo, o quê que a Igreja quer buscar com sua ação? É que haja honestidade dos candidatos, principalmente, nesse momento assim que a gente sente tanta desonestidade, tantos desmandos na área política, desvios públicos... Candidatos publicamente declarados, envolvidos em corrupção, sendo candidatos e sendo eleitos. Isso tem trazido para o povo uma insegurança, uma intranqüilidade, uma certa revolta, né. Mas, como o poder de compra muda a cabeça das pessoas, é um paradoxo, porque muitas vezes o sujeito não concorda com o candidato e, ao mesmo tempo, vota nele, porque foi comprado, porque foi beneficiado de alguma forma.
ZAAP! – A Igreja Católica aprova a candidatura de padres?
Dom Paulo – Há uma norma da nossa Diocese que diz que um padre, registrando sua candidatura, fica suspenso das atividades públicas na Igreja até terminar seu mandato. Terminou, volta. Ele pode até celebrar em particular. Isso não tem problema.
ZAAP! – Se ele não for eleito, pode voltar automaticamente?
Dom Paulo – Pode. É só porque as duas coisas são incompatíveis. Não é que são incompatíveis. É que na verdade ele tem oposição e a oposição fica a todo momento espetando o bispo, a Diocese, de propósito. Por isso, é melhor separar as coisas. Eu entendo também que a escolha pela vida sacerdotal é uma escolha que tem de ser feita com muita liberdade, mas com responsabilidade de assumir o que foi a decisão. Agora, parte para outro caminho. Além disso, eu entendo que todo padre deve formar suas lideranças para que delas saia um candidato. Isso sim.
ZAAP! – Então, o papel do padre é formar lideranças para que se tornem candidatos, em vez de assumir o papel de candidato?
Dom Paulo – A Igreja fala sempre isso. Fiéis leigos, com boa formação, devem assumir candidaturas. A Igreja não é contra, não. É a favor. Incentiva isso.
ZAAP! – A Igreja terá seu candidato na eleição? Em eleições anteriores, padres deram depoimentos para o programa de TV de candidatos e até pediram voto durantes as missas. Como será este ano?
Dom Paulo – Deixa eu te dizer quais serão nossas orientações práticas: votar consciente é um dever de todos, mesmo estando desencantado com a atuação dos políticos; depois, conhecer bem a história de vida política dos candidatos, observando seu passado e seu presente; não votar em candidatos que ofereçam vantagens ou favores pessoais em troca de voto. Isso eu estou falando para você sentir que a Igreja não tem nem partido nem candidato, mas age em função da consciência. Mas você vai falar: como é que padre tal fez isso, fez aquilo? Não é a orientação da Igreja. É uma questão de opção pessoal dele. Tem mais: cuidado com candidato que não tem uma prática em favor da vida. É o aborto, a eutanásia, a célula-tronco embrionária, os anencéfalos (que se caracterizam pela falta total ou parcial do cérebro). A Igreja nunca vai abrir mão na questão da vida. Quem vende o seu voto vende a si mesmo. Vende sua consciência. Voto não tem preço. Tem conseqüência. Outra coisa é estar atento ao que diz a Lei 9.840. No documento que vou entregar aos padres, até coloco qual é a posição da Igreja, de uma forma meio genérica, citando palavras do papa Bento XVI e do papa João Paulo II.
ZAAP! – Sem querer misturar, mas a Igreja Universal criou um partido, o PRB. Aqui, em Rio Preto, ela terá um candidato e toda ela deve trabalhar em favor desse candidato. A Igreja Católica nunca teve esse tipo de atuação? De criar um partido...
Dom Paulo – Não, mas eu te digo a razão. A finalidade da Igreja não é fazer a cabeça das pessoas, mas é conscientizar as pessoas. Se você apresenta um candidato, você está dividindo com outros e a Igreja não é divisão. Ela é para acontecer a união. Há a possibilidade de muitos outros candidatos, tão bons quanto. Por isso, é que tem de formar consciência e conhecer a vida do candidato. Por exemplo, uma paróquia tomou uma decisão em conjunto de que todos vão votar num único candidato, inclusive, entre os próprios candidatos. Até algum abriu mão para que fosse aquele. Tudo bem. Aí, é uma decisão em conjunto. Mas não é a orientação da Igreja assumir candidato.
ZAAP! – Mas nesse caso a Igreja não vai interferir?
Dom Paulo – Não. Por isso, a Igreja trabalha a liberdade.
ZAAP! – Em Belo Horizonte, houve uma vez em que a Diocese fez uma lista com o nome dos candidatos em quem os fiéis podiam votar. Aqui, teremos isso?
Dom Paulo – Não. Só se algum padre fizer.
ZAAP! – Quais bandeiras a Igreja gostaria de ver os candidatos defendendo nestas eleições?
Dom Paulo – Aquilo que é da doutrina social da Igreja. Quer dizer, a justiça, a honestidade, o bem-comum, melhor distribuição da renda nacional. Isso depende logicamente se o candidato tem uma boa formação. Se não tem, ele vai estar preocupado com ele, né. No seu bem, no seu público. Por exemplo, um prefeito tal é muito gentil com aqueles que estão do seu lado, mas com os do outro lado ele é salgado. Isso não pode fora do tempo político. Dentro do tempo político, tudo bem. É campanha. Depois, ele tem de pensar que foi eleito para todos. Aí, cai na politicagem. A verdadeira política é o bem-comum. Saiu disso passa a ser politicagem.
ZAAP! – A Igreja Católica deverá promover debates nestas eleições?
Dom Paulo – Há um pensamento da Pastoral Fé e Política de promover alguns debates, principalmente, entre os candidatos a prefeito. Mas não tem nada definido ainda não. Para que isso? Justamente para criar a consciência política e votar com liberdade.
ZAAP! – Rio Preto terá algum padre-candidato?
Dom Paulo – Não. Só um candidato a vice-prefeito na região.