Vale ler
Vale a pena ler o texto abaixo de Eliane Cantanhêde, publicado na
Folha de S.Paulo. Eliane Cantanhêde é colunista da
Folha, desde 1997, e comenta governos, política interna e externa, defesa, área social e comportamento.
"Por que não te calas?"
É a velha história: quem fala o que quer ouve o que não quer. O nosso peculiar Hugo Chávez desandou a chamar de "fascista" o ex-presidente da Espanha José María Aznar, quando o sucessor de Aznar, José Luiz Zapatero, e o rei Juan Carlos tomaram as dores. Pronto, foi um fuzuê!
"Por que não te calas?", rosnou o rei, apesar de ter sido sempre tão afável, numa imagem e numa fala que rodaram o mundo e dividiram opiniões. Não sem muitas gargalhadas, cá entre nós.
A primeira reação foi contra Chávez, que fala demais e não tem papas na língua. Chama George W. Bush de "Diabo" em plena Nova York, classifica Aznar de "fascista" diante do rei e agora acusa o próprio rei de "prepotente e desrespeitoso". Sem contar os impropérios que já despejou contra o Congresso brasileiro, que está votando justamente se apóia ou não a entrada da Venezuela no Mercosul. Ousado, esse Chávez.
A reação seguinte, que começa a surgir agora, dias depois do episódio, é a de analisar o bate-boca sob o ângulo do opressor (o rei, a Espanha...) e do oprimido (a Venezuela, a América Latina), com o detalhe, real, de que Aznar não chega a ser um anjo e de fato estimulou o fracassado golpe de 2002 contra Chávez. Isso, porém, não dá a Chávez o direito de inverter a velha história e inventar uma nova: "Eu falo o que quero e você ouve aí calado". Não pode. E não tem o direito de irritar os convidados em casa alheia - a confusão foi no Chile.
Chávez é ousado, mas também incauto, porque ele está evoluindo no cenário internacional de bufão para autoritário, de autoritário para ditador pura e simplesmente e de ditador para desafiador do mundo - e não mais apenas do primeiríssimo mundo representado pelos EUA e por Bush.
Chávez foi eleito pela primeira vez em 1999 e respeitou rigorosamente todos os preceitos constitucionais e democráticos para fazer uma limpa numa Venezuela corrupta, antiquada e espoliada (aliás, três adjetivos que sempre andam juntos). Desde então, perde importantes aliados, tanto na área política quanto na militar e na acadêmica. E, se há essa sangria interna, há o consequente desgaste externo.
Chávez está convencido de que bastam o petróleo caro, massas aguerridas, bilhões em armamento e seu carisma pessoal para se perpetuar no poder. Está errado. Ninguém briga com tudo e todos ao mesmo tempo, impunemente. Num mundo global, todos estão de olho em todos. E os investimentos dependem muitíssimo desse olhar.
O cala-boca do rei da Espanha pode não ter sido lá muito diplomático, nem adequado à solenidade intrínseca à realeza, mas traduz uma advertência que vem de dentro da Venezuela para fora, no mundo. Chávez deveria refletir sobre ela, se é que ele é mesmo capaz de refletir além do seu próprio umbigo.
Comentários
Muito bem, Mirna. Tomaste partido de quem merece, mesmo tendo sido um tanto explosivo. Aliás, digo-te como já disse em outros comentários, que o Rei não mandou o índio desaforado calar a boca, apenas fez uma pergunta mais alterada na ocasião corretíssima. Em que pese a alteração, justificada até demais, um rei sempre será majestade e um índio (diga-se de passagem eu sou descendente de indigenas do Pará, mas sei até onde podemos ir) também sempre será um índio, como qualquer pessoa, aliás, esteja em que patamar esteja, tem que obedecer uma hierarquia e/ou situações particulares e diplomáticas. O Rei poderia, se é que não deveria era tê-lo mandado calar a boca mesmo, já que fala demais e sem qualquer reserva ou respeito. Parabéns pela tua reportagem e pelo teu posicionamento.
Deusarino de Melo | 24-11-2007 13:18:03
De bufão a ditador. Uma boa definição para Chavez e seu "socialismo bolivariano". O Aznar é um direitista assumido e perdeu as eleições após o atentado em Madri, quando acusou o ETA, que nada teve a ver com o fato. Mas isso não dá o direito a Chavez de fazê-lo vítima de sua diarréia verbal. E a gente ainda reclama das metáforas futebolísticas do Lula...
Ricardo Brandau | 14-11-2007 13:02:47