Perfil
Mirna de Lima Soares é jornalista. É formada em Comunicação Social, habilitada em Jornalismo, pelo Instituto Metodista de Ensino Superior (atual Universidade Metodista de São Paulo - SBC/SP). Começou a carreira em jornais de bairro, em São Paulo, ainda durante a faculdade. Passou pela Gazeta do Ipiranga e pela Gazeta de Santo Amaro, como revisora, secretária gráfica e repórter. Em Rio Preto, está desde 1993, quando foi contratada pelo extinto jornal A Notícia, como repórter de Cultura. Foi também repórter da Rede Record e, posteriormente, chamada para a editoria de Cultura do Diário da Região. Passou por praticamente todas as áreas dentro do jornal, onde permaneceu por sete anos e três meses: Cidades, Carro, Cultura, Diarinho, Economia, Esportes, Especial, Geral, Informática, Mundo, Política e Turismo. Como editora-assistente, esteve em Cultura e Política. Comandou como editora o caderno Cidades, Carro, Diarinho, Especial, Geral, Informática, Mundo, Turismo e Política, tendo também assinado a coluna Politiká. Foi por três anos correspondente da Agência Estado, uma das principais agências de notícias do Brasil, e já revisou mais de 50 livros para editoras de Rio Preto e São Paulo. Em 2003, foi coordenadora de Comunicação (site, programa de TV "O Tópico" e assessoria de imprensa) do Festival Internacional de Teatro de Rio Preto. Em 2004, trabalhou na campanha política de Rio Preto, onde - entre outras funções - redigiu o programa de governo do candidato eleito. Foi também assessora de comunicação da Secretara de Saúde e Higiene de Rio Preto, cargo no qual permaneceu por dois anos. Foi ainda aassessora de gabinete da Secretaria de Comunicação Social da Prefeitura de São José do Rio Preto. Atualmente, é assessora de Comunicação da deputada estadual Beth Sahão (PT).
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Sábado, Abril 28


Dicas 10

No início do ano, li dois livros que me encantaram. Eu já até falei deles aqui. Um tempo atrás disse que havia escrito sobre eles e que depois publicaria. Faço-o agora. O texto está na íntegra. Mas foi publicado na última quinta-feira (26/4) no Diário da Região. Só que dei uma editada para adequá-lo ao espaço do jornal. Os livros valem a pena. Ao final, digo que espero a chegada de um novo livro, que rebate o da jornalista norueguesa. Na verdade, já chegou (quando escrevi, de fato, estava esperando). Estou até lendo e depois escreverei sobre.



Burca? Nem pensar

Mirna de Lima Soares*


Acabo de confirmar. A forma como aprendi a encarar a vida jamais seria aceita do outro lado do mundo. No Afeganistão, mulheres como eu - e, claro, milhões de brasileiras - já teriam sido apedrejadas em praça pública há muito tempo. O básico do básico que minha mãe me ensinou, que é ter uma profissão, porque marido uma hora vira as costas, é inadmissível por lá. Pelo menos, é o que mostram "O livreiro de Cabul" e o "O caçador de pipas".

Livros que retratam momentos diferentes daquele país, escritos por pessoas com visões de mundo completamente distintas - o primeiro é escrito por uma norueguesa, a jornalista Asne Seierstad, e o segundo, por um afegão, Khaled Hosseini, as duas obras acabam revelando, às vezes, de maneira dolorida a realidade feminina por lá.

Especialmente no primeiro, talvez por ser escrito por uma ocidental, o cotidiano das mulheres descrito é impressionante. São extremamente submissas. Aceitam o marido que escolhem para elas. Estudam se eles deixarem, porque, em primeiro lugar, vêm os afazeres domésticos. Elas não têm opinião absolutamente sobre nada. Suas vidas se restringem a atender às ordens - primeiro - dos pais; depois, dos maridos; e, por último, dos irmãos mais velhos.

Mulheres separadas praticamente não existem por lá. Quando isso acontece, elas voltam a morar na casa dos pais ou do irmão mais velho. O desprezo com que tratam as mulheres é tamanho que até nas piadas isso fica patente. No romance de Khaled Hosseini, por exemplo, um personagem conta que o mulá Nasruddin, ao descobrir que sua filha apanhava do marido, deu-lhe outra surra e mandou-a levar o seguinte recado a ele: "Diga que não sou idiota. Se o cretino acha que pode bater em minha filha, eu me vingo batendo em sua mulher".

Noutra passagem, uma das personagens teria um amante. Seu final foi trágico. Curiosamente, após seus irmãos descobrirem, ela morreu eletrocutada numa noite de calor com um choque de ventilador. Aos olhos dos afegãos, é mais que merecido. Pior que isso, para as mulheres afegãs, só mesmo o marido se casar com uma mais jovem, relegá-las a segundo plano e ainda terem de morar sob o mesmo teto, além de servi-los como uma empregada. Para mim, é de morrer.

Essa situação retratada foi reforçada no pós-Taleban. Esse é o Afeganistão que não vemos. Nas manchetes, está o país de Osama bin Laden, aquele do ataque de 11 de setembro. Mas o país pós-Taleban é mais cruel com suas mulheres.

Não se pode negar que em algum tempo houve um progresso, triturado primeiro pelos russos e, depois, aniquilado pelos talebans. Era uma época em que as mulheres usavam saias. Estudavam. Ocupavam cargos importantes no governo. Participavam das decisões. Mostravam seus rostos.

Agora, andam à espreita. Só saem de casa se um homem - pode até ser criança - as acompanhar. Tudo tem mais valor que suas opiniões ou desejos. Suas opiniões, aliás, só são aceitas pelos homens quando são para lhes falar da mulher com que querem se casar. No Afeganistão, um homem não pode pedir uma mulher em casamento. É uma de suas familiares - mãe, tia, irmã, prima... - quem vai até a pretendida ver seus modos, suas feições de perto, ver se é digna do pretendente e então fazer o pedido de casamento para a família. Barbaridade! Será?

O que muda no Brasil que a gente desconhece? Até onde se sabe lá para o Norte/Nordeste as mulheres também não têm direito a muita coisa. Às vezes, até são dadas em troca de comida. Duas, três dividem o mesmo homem, sob o mesmo teto. Sobre o analfabetismo, não é preciso falar. Trabalham feito burro de carga e sabe lá Deus o que é direito à opinião. Isso sem falar que caso de adultério é resolvido na peixeira.

As mais de 700 páginas que li, e algumas vezes reli, revelam ainda outros aspectos da cultura e do mundo afegão. O que retrato aqui é apenas uma pinçada do que retratam as duas obras. Poderia ter selecionado outro ponto abordado pelos autores para traçar meus paralelos. Mas, como mulher, foi o que me saltou aos olhos e à mente. Ler esses dois livros me levou a refletir sobre o quão distante eu vivo da realidade cotidiana, que de fato vivemos no nosso mundinho fechado, cheio dos nossos problemas e sequer imaginamos o que existe do outro lado do horizonte. Essa viagem literária me vez olhar para outra cultura com uma curiosidade tremenda. Há muito tempo não lia tão bons livros.

Agora, espero pela chegada no Brasil de "Eu sou o livreiro de Cabul", escrito pelo personagem real, retratado pela jornalista Asne Seierstad. Shah Muhammad Rais quer rebater alguns relatos feitos por ela, que ele diz não serem verídicos. Com a palavra, o livreiro.

* É jornalista e autora do www.mirna.com.br

postado por MIRNA DE LIMA SOARES 8:47:09 AM
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Quinta-feira, Abril 5

Muito boa

Na semana passada, o jornalista Franklin Martins, que será o novo ministro de Comunicação Social do governo Lula, deu uma entrevista à Folha de São Paulo. É longa, mas vale a pena conferir. Fala de jornalismo, de democracia, de vida...


Franklin Martins

Futuro ministro de imprensa critica cultivo de mídia simpática

Kennedy Alencar
da Folha de S.Paulo, em Brasília


O jornalista Franklin Martins, 58, futuro ministro que comandará as áreas de imprensa e publicidade do governo, diz que esses "guichês serão separados". "As empresas de comunicação no Brasil, de modo geral e em sua maioria, são empresas sérias. Não aceitariam misturar os guichês. Eu sou uma pessoa séria e não aceito misturar os guichês."

Fala, porém, que a imprensa "não está numa redoma" e "será criticada sempre que avançar o sinal". Na sua visão, isso ocorre quando a mídia "pretende puxar a sociedade pelo nariz para um lado e para o outro".

Indagado se o governo incentivaria a criação de órgãos de imprensa simpáticos, como prega o PT, diz: "Não cabe ao governo plantar, regar e colher veículos de comunicação simpáticos a ele".

Prega a criação de uma rede pública de TV, dizendo que ela não deve funcionar com lógica comercial. Afirma que o governo fará indicação inicial de diretoria, mas sem partidarismo. "Senti na conversa com o presidente que é TV pública e não estatal. Plural e não partidária."

Defende encontro entre Lula e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso para que se mantenha agenda comum nacional que quase se perdeu na crise do mensalão devido à "luta política" entre PT e PSDB. A agenda tem cinco pontos: democracia, estabilidade monetária, responsabilidade fiscal, crescer com distribuição de renda e combater a exclusão social. "Os dois precisam conversar. Seria muito bom para os dois e para o País, mantendo as opiniões e divergências. Cada macaco no seu galho. E, do seu galho, cada um pode conversar com o outro."

O novo ministro manterá o processo contra o jornalista Diogo Mainardi, da revista Veja, porque ele o acusou de crimes. "Fiz o que se faz em qualquer estado de direito." Diz que tratará a Globo profissionalmente, empresa da qual foi demitido após o episódio Mainardi. "Quem olha para trás vira estátua de sal."

Diz ter "orgulho" de ter combatido a ditadura militar de 1964. "Lutei do lado certo." Com olhos marejados, demonstra emoção ao falar desse assunto. "Vivi na clandestinidade cinco anos e meio. Vivi cinco anos e meio no exílio. No entanto, não vivo mais na clandestinidade. Muita gente que torturou e matou é clandestina até hoje, até para a sua família", afirma.

Indagado a respeito do que achava hoje de o manifesto dos seqüestradores do embaixador americano Charles Elbrick defender a matança de torturadores e carrascos da ditadura, afirma: "Naquela época, quem fizesse oposição ao regime estava sob o risco de ser preso, torturado e morto. Eram outras circunstâncias, circunstâncias de guerra".

Imagina que seria negado um pedido de visto de entrada nos EUA devido à sua participação no seqüestro de Elbrick, ação de um grupo formado por militantes de duas organizações guerrilheiras, a Ação Libertadora Nacional e o Movimento Revolucionário 8 de Outubro, que seqüestrou o embaixador americano para forçar a ditadura a libertar 15 presos políticos, entre os quais José Dirceu, hoje ex-ministro da Casa Civil. "[O visto] É uma questão secundária. Tanto os Estados Unidos quanto eu sobreviveremos a esse detalhe", diz, num tom bem-humorado.

Franklin acumulará a função de secretário de imprensa com a de ministro até indicar um substituto para o cargo hoje exercido pelo jornalista André Singer. Para porta-voz, nomeará alguém de fala "concisa". Convidou o jornalista Eugênio Bucci a permanecer à frente da Radiobrás e aguarda resposta. A seguir, a íntegra da entrevista dada em sua casa, em Brasília, na tarde de sexta-feira:

Folha - Por que o presidente o convidou?
Franklin Martins -
A idéia do presidente é passar para a sociedade a idéia de que deseja ter uma relação de comunicação forte, mais intensa e mais profissional. Simbolicamente, ao chamar um profissional como eu, quis passar essa idéia. Comunicação é falar e ouvir. Não é só falar.

Folha - Lula é criticado por ter dado raras entrevistas coletivas no primeiro mandato.
Franklin -
Isso correspondeu a um momento. O presidente tem dado entrevista quase todo dia, falando ao final dos eventos.

Folha - Mas foge ao formato de coletiva e às exclusivas em que pode haver o pingue-pongue entre entrevistado e entrevistador.
Franklin -
Cabe o formato de coletiva, que não é para se fazer todo dia. O presidente fará uma coletiva em breve. E cabem essas entrevistas de saída de eventos em que dará a palavra do presidente sobre o assunto do dia, o que é fundamental para os jornalistas. E cabem os formatos de conversas com jornalistas e entrevistas para órgãos de imprensa. O presidente terá uma comunicação muito mais intensa e profissional.

Folha - E por que o senhor aceitou?
Franklin -
Um pouco de vaidade com essa coisa de ser ministro. Gosto de desafios. Profissionalmente, estava no auge da minha carreira. Comentarista respeitado, prestigiado junto aos colegas e às fontes. Mas, no fundo, queria fazer coisas novas, diferentes. Tem a ver com as circunstâncias políticas do País. Passamos por uma crise política extremamente dura, selvagem em alguns momentos, e estamos saindo dela. Foram cometidos erros de lado, do governo e da imprensa. O povo brasileiro demonstrou maturidade. Quis a apuração dos fatos. Mas também olhou e disse: "eu também quero que o País continue a melhorar, a enfrentar os seus problemas reais. Não vamos confundir disputa política com solução dos grandes problemas nacionais".

Isso baixou a intoxicação do debate político. Na campanha, quando os candidatos subiram de tom, tiveram queda nas pesquisas. O recado era "menos, gente".

Lula venceu com grande vantagem, demonstrando que a opção do eleitor não foi fortuita. Mas o eleitor disse: "Não quero perder os avanços que nós temos devido à luta política tumultuada".

Folha - Não foi só luta política. Houve escândalos de corrupção sérios. Houve o "dossiê gate". O senhor acha que a imprensa exagerou?
Franklin -
Falando ainda como jornalista, não como ministro, a imprensa cumpriu um papel importante no primeiro momento da crise, forçando a realização das CPIs - Comissões Parlamentares de Inquérito. De certa forma, pautou os primeiros momentos. Trouxe à tona o caixa dois, os recebimentos de dinheiro por parlamentares. Entretanto, a partir de determinado momento, era preciso avançar e responder a uma questão crucial que eu repetia como um mantra nos comentários: "De onde veio o dinheiro do valerioduto?" Por quê?

Essa resposta permitiria que a investigação desse os passos seguintes. Hoje, não contamos a história. Há a suspeita. Evidente que o dinheiro do valerioduto foi para maior número de parlamentares do que o apontado pela CPI. O dinheiro havia sido aplicado para financiar troca de partidos, uma hipótese bastante plausível. Por que a CPI não quebrou o sigilo desses parlamentares? Não houve da parte da CPI esse interesse. E a imprensa não fez uma investigação independente para saber de onde veio e para onde foi o dinheiro do valerioduto, o que permitiu que o processo ficasse apenas com aparência de discurso político.

A partir de um determinado momento, a imprensa parou de pautar a CPI e passou a ser pautada pela CPI. Prevaleceu não a investigação, mas o discurso. E a população percebeu isso e se afastou, o que é ruim, pois nos afastou de conhecer melhor e mais o que aconteceu.

postado por MIRNA DE LIMA SOARES 11:47:54 AM
Comentários:

Folha - Colocar numa mesma pasta a verba publicitária do governo e a relação com a imprensa não traz o risco de tentativa de manipulação política da mídia?
Franklin -
Traz. Viver é muito perigoso, como dizia Guimarães Rosa. Risco sempre existe, mas não é um risco novo. Em todos os Estados da Federação, é assim. No governo federal, sempre foi assim. Já tivemos casos em que o porta-voz do presidente [diplomata Sérgio Amaral, no governo FHC] era também quem controlava a verba de publicidade. E não houve nada demais.

Folha - No segundo mandato, FHC separou as funções. E Lula as deixou assim no primeiro mandato.
Franklin -
O Sérgio Amaral controlou a verba de publicidade e isso não resultou em coisa escusa, malandragem. Não houve nada.

Folha - Separar publicidade e imprensa não é uma fórmula mais imparcial?
Franklin -
A maioria esmagadora dos recursos de verba publicitária é das estatais. O governo não controla. As campanhas de publicidade do governo têm uma dimensão política e técnica. Vou indicar alguém da minha absoluta confiança, íntegro e com conhecimento do mercado de publicidade, com experiência de trabalho executivo, para cuidar da parte técnica. Serei responsável em última instância.

Na dimensão política, deve-se discutir qual o sentido da campanha que o governo realiza ou vai realizar. Se há dúvidas sobre um programa social do governo ou uma medida do governo, talvez caiba uma campanha para esclarecer melhor. O acompanhamento da mídia é fundamental para sentir, por exemplo, se há dúvidas sobre o PAC - Programa de Aceleração do Crescimento. Colhe-se isso também na relação com a imprensa, que expressa as mais variadas posições da sociedade. Uma eventual inflexão da propaganda poderá esclarecer tais dúvidas.

É um conceito de unificação da comunicação do governo, não é para misturar dois guichês. Os guichês serão absolutamente separados. As empresas de comunicação no Brasil, de modo geral e em sua maioria, são empresas sérias. Não aceitariam misturar os guichês. Eu sou uma pessoa séria e não aceito misturar os guichês. O governo é sério e não aceita misturar os guichês.

Folha - Concorda com as teses do PT de que é preciso democratizar os meios de comunicação? Acha que deve ser estimulada a criação de veículos de comunicação simpáticos ao governo, dando-lhes financiamento oficial direto ou indireto?
Franklin -
Essa questão de democratização dos meios de comunicação é uma fórmula na qual cabe tudo. Sou a favor, óbvio. Quanto mais democrática e plural a circulação de idéias na sociedade, melhor. Mas não cabe ao governo plantar, regar e colher órgãos de comunicação simpáticos a ele. Quem cria órgãos de comunicação é a sociedade. O governo tem uma função na relação com a imprensa: garantir a liberdade de imprensa. Ponto. O resto é a sociedade quem faz.

Folha - A rede pública de TV não corre risco de virar uma nova Radiobrás ou TV Voz do Brasil? Ela é necessária?
Franklin -
É necessária. A intensidade com que essa discussão surgiu mostra que o País estava precisando discutir isso. Em qualquer discussão que se inicia, as posições, às vezes, vêm truncadas. Esse processo ajuda a avançar. O governo não pretende criar uma TV do governo, estatal. Mas estimular, fazer crescer e dar forma a uma rede pública de TV.

Folha - Com qual formato em termos editoriais, de gestão e de financiamento?
Franklin -
Não vai funcionar guiada pela questão comercial. Isso coloca limitações para uma série de TVs que necessitam adquirir uma determinada escala de audiência e respondem a estímulos comerciais porque são empresas que visam lucro. Essas TVs privadas não podem entrar em determinadas áreas, fazer determinadas programações, que são importantíssimas.

Folha - Mas não é importante ter audiência?
Franklin -
É importante. Estou falando de escala de audiência. Não tem obrigação de concorrer para liderar o horário nobre. Na Inglaterra, na época em que fui correspondente, havia duas TVs públicas, BBC 1 e BBC 2, e dois canais privados, ITV e Channel Four. A BBC 1, com programação mais educativa, competia com o Channel Four. A BBC 2, com a outra, que tinha programação mais comercial. A BBC 1 tinha audiência de seis e sete pontos, o que é um índice bom. Essa situação ajudava a melhorar o padrão de produção de todas as TVs.

Os mecanismos de gestão e de financiamento devem ser discutidos e feitos com base na experiência exitosa de outros países e aqui, como a TV Cultura, por exemplo.

Folha - Quem vai escolher a diretoria?
Franklin -
Evidentemente, a escolha inicial parte do governo. Mas o governo não precisa escolher os partidários do governo. Não existe ainda um formato definido. A discussão ainda não está madura. O que senti na conversa com o presidente é uma TV pública e não estatal. Plural e não partidária. Aberta para contribuição e presença das diferentes identidades regionais e não com uma programação de uma cara só. [Deve ter] programação variada, com jornalismo, com parte cultural voltada para cidadania.

Isso é diferente da Radiobrás, que tem um papel que deve continuar, funciona como uma agência noticiosa do governo. Nesse aspecto, a gestão do Eugênio Bucci foi importante, sem caráter de chapa branca. Tanto que convidei-o para permanecer na Radiobrás. E ele ficou de me dar a resposta.

Folha - O governo deverá colocar recursos vinculados, haverá possibilidade de corte no orçamento dessa rede pública?
Franklin -
Honestamente, ainda não tenho idéia. O governo vai ter de botar verba. Há discussões se vale a pena trabalhar com patrocínio privado, como existe na TV Cultura. Não publicidade comercial. Os modelos de financiamento e de gestão devem ser discutidos. Será bom para o Brasil ter uma TV pública.

No Brasil, a gente se assusta com tudo que significa mudança, modernidade e novidade. Depois, descobre que é muito bom. Não sei por que o Brasil se assusta com a possibilidade de ter uma BBC.

Folha - As primeiras reações de parte dos veículos privados têm sido de reticência.
Franklin -
Foram reações próprias de um debate inicial. Editoriais, como os da Folha, criticavam a TV do governo, mas, se for uma TV pública, a coisa muda de figura. Podemos discutir. Isso é parte do debate político. Estamos saindo de um momento muito tumultuado de disputa política. Passou a ser óbvio, de entrada, desqualificar a outra posição para não ter que entrar no mérito da discussão.

O que mais quero como ministro da comunicação social é ajudar a qualificar o debate político, o debate público. Liberdade de imprensa não é só informar, mas também qualificar o debate público. Fazer com que se exprimam as diferentes posições da sociedade, que se choquem, e a sociedade escolha a melhor.

Pode haver gente tão a favor da liberdade de imprensa quanto eu, mais a favor não tem. Meu pai foi jornalista e preso na ditadura Vargas por não aceitar o autoritarismo. Eu passei a minha juventude lutando contra a ditadura [militar de 1964].

A liberdade de imprensa é o nome que se dá ao direito de a sociedade ser informada.

Folha - Como diz o ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos, a Constituição deseja que a imprensa seja livre, não determina que seja justa.
Franklin -
Isso. Quando a imprensa não é justa, ela paga um preço. Não é o Estado que paga. Paga pela crítica feita a ela pela sociedade. A imprensa também não está numa redoma. O presidente pode ser criticado, o ministro pode ser criticado, o papa pode ser criticado, a imprensa pode ser criticada e será criticada sempre que avançar o sinal. Quando ela avança o sinal? Quando vai além do trabalho de dar informação, de fazer circular a informação e de aumentar o debate público. Quando pretende puxar a sociedade pelo nariz para um lado e para o outro. Essa não é uma função da imprensa.

Folha - O senhor identifica veículos que avançam sinal hoje?
Franklin -
A sociedade pode fazer essa crítica. Não sou eu quem devo fazer. Evidente, nesse período de crise, teve gente que se comportou de uma forma, teve gente que se comportou de outra. Dentro de nossas redações, há jornalistas que foram mais longe. Eu sempre disse que seríamos julgados pelo nosso comportamento, o que é positivo, não é ruim. A imprensa sairá melhor e já está saindo melhor dessa crise do que entrou. Como o governo está saindo melhor do que entrou. A crítica é o que faz pessoas crescerem desde que elas consigam perceber o que fizeram de errado. E quem critica a imprensa e muda a imprensa é a sociedade, não é o governo. Não é o leitor. O leitor de um jornal pode até estar gostando desse jornal. Mas o debate na sociedade pode levar aquele leitor a perceber que não era bem assim.



Folha - Como ministro, o senhor manterá o processo contra o jornalista Diogo Mainardi?
Franklin -
Vou manter.

Folha - Por quê?
Franklin -
Não estou fazendo nada contra a liberdade de imprensa. Manter o processo contra esse senhor não tem nada a ver sobre o que eu penso ou o que ele acha que eu penso. É um direito que ele tem. Isso não discuto. Entrei com processo contra ele porque ele me acusou de crimes. Me acusou de ter praticado tráfico de influência e de ter participado da quebra de sigilo do caseiro Francenildo Costa.

Fez essas acusações sem nenhum elemento. Mais do que isso, ele e a revista dele ["Veja"] se recusaram a publicar a minha resposta, a minha explicação. Que liberdade de imprensa é essa na qual um lado fala e sequer publica o outro lado. Fiz o que se faz em qualquer estado de direito. Quando acha que sua honra foi atingida, recorre à Justiça. Quem pode definir se essa honra foi atingida? Eu? O colunista da revista? Não, a Justiça. No processo, peço que seja publicada a minha resposta e peço reparação por danos morais.

Folha - Como ministro, não ganhará mais peso esse processo em seu favor?
Franklin -
A Justiça não vai agir assim porque sou ministro. Pelo ritmo no Brasil, a Justiça só terá julgado esse processo depois que eu deixar de ser ministro. Ele terá toda a oportunidade de provar que todas as acusações de que cometi crimes são verdadeiras. E, se for isso, quem vai ficar mal sou eu.

Ele também pode, se quiser, dizer: "Eu errei. Volto atrás". Mas hoje em dia pega mal para ele. Acho que dificilmente o fará. Não vou abrir mão de defender a minha honra da única forma num estado de direito, que é ir à Justiça.

postado por MIRNA DE LIMA SOARES 11:47:32 AM
Comentários:

Folha - Esse episódio foi determinante para o seu afastamento da função de comentarista do "Jornal Nacional" e da saída da Rede Globo?
Franklin -
Não. Eu já havia deixado de ser comentarista do "Jornal Nacional". A direção da TV Globo chegou à conclusão de que deveria tirar toda e qualquer opinião do jornal porque ele era basicamente informativo.

Folha - E em relação à saída?
Franklin -
Fiz essa pergunta à direção, e eles disseram que não. A alegação que me deram é que eu estava com imagem fraca como jornalista, muita gente não me conhecia. Eu disse a eles que achava que a explicação não me convencia. A pergunta tem de ser feita à TV Globo.

Folha - O senhor tem mágoa da Rede Globo e de sua cúpula atual?
Franklin - Não. Tive oportunidades profissionais fantásticas na TV Globo. Trabalhei lá durante oito anos e meio. Fui comentarista dos principais jornais. Participei do núcleo que coordenou a cobertura das eleições de 2002, que foi um marco na história da TV Globo. Fui diretor de jornalismo em Brasília, sempre com uma relação excepcional com a Central Globo de Jornalismo. Portanto, sou grato à TV Globo. Aconteceu uma coisa que não entendo.

Folha - Como o senhor pretende se relacionar com a Globo?
Franklin -
Digo sempre que não vou olhar para trás. Quem olha para trás vira estátua de sal. Tenho muitos amigos na Globo. Deve haver pessoas que não gostam de mim. Será um relacionamento profissional.

Folha - Qual é a sua avaliação da cobertura da imprensa de modo geral a respeito do governo Lula?
Franklin -
Vou falar como acho que deve ser daqui para frente. Profissional, séria, crítica, sem preconceito.

Folha - O senhor está proibido de entrar nos EUA por causa do seqüestro de Charles Elbrick?
Franklin -
É uma versão que corre, provavelmente verdadeira. Mas nunca pedi visto para o governo americano, até porque imagino que não me dariam. Outras pessoas que estiveram na mesma situação que a minha, de seqüestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick, receberam sinais de que não conseguiriam.

Folha - O senhor vai com Lula para Washington no final do mês?
Franklin -
Não sei. É uma questão secundária. Tanto os Estados Unidos quanto eu sobreviveremos a esse detalhe.

Folha - O senhor participou da luta armada contra a ditadura militar de 1964. Como avalia hoje aquele período? Valeu a pena? Foi o melhor caminho? Arrepende-se de algo? Faria diferente?
Franklin -
Faria muitas coisas diferentes com a visão que tenho hoje. Não me arrependo do que é central. Lutei do lado certo. Lutei do lado da democracia contra a ditadura.

Folha - O manifesto dos seqüestradores do embaixador falava em matar carrascos e torturadores do regime militar. O que acha disso hoje?
Franklin -
Fica difícil discutir porque hoje não existe uma polícia como um instrumento de opressão política do Estado sobre as pessoas. Hoje, as pessoas fazem oposição livremente, falam livremente. Naquele época, quem fizesse oposição ao regime estava sob o risco de ser preso, torturado e morto. Eram outras circunstâncias, circunstâncias de guerra.

Com todas as suas diferentes nuances, o povo brasileiro superou a ditadura militar. Participei das manifestações estudantis de 1968 que praticamente inviabilizaram o modelo de ditadura que eles tinham. Então, partiram para o terrorismo de Estado aberto. Em 1974, a vitória do MDB, inviabilizou o terrorismo de Estado. As diretas, em 1984, inviabilizaram a distensão que pretendia manter uma ditadura sob controle. Estive do lado certo. Tenho o maior orgulho de ter lutado. Tenho um certo pudor de bater no peito e ficar proclamando, parece que estou contando vantagem.

Tenho o maior orgulho de ter lutado contra a ditadura. Posso contar tudo o que fiz, inclusive os meus erros, para os meus filhos, os meus netos, discutir abertamente na sociedade.

Os que estiveram do outro lado não podem. Vivi na clandestinidade cinco anos e meio. Vivi cinco anos e meio no exílio. No entanto, não vivo mais na clandestinidade. Muita gente que torturou e matou é clandestina até hoje, até para a sua família.


Preso em Ibiúna em 68 no Congresso da UNE

Folha - O senhor foi preso e torturado?
Franklin -
Fui preso durante dois meses, mas não fui torturado. Saí um dia antes do AI-5 [ato institucional número 5, de 13 de dezembro de 1968, que suspendeu direitos políticos e tornou mais bruta a ditadura militar de 1964]. Se estou aqui até hoje, é porque sou um sujeito que teve muita sorte.

Folha - O senhor participou de alguma ação em que morreram pessoas? Matou alguém?
Franklin -
Não, não.

Folha - Nas eleições, Lula chegou a dizer que desejava um acordo com a oposição, encontrar uma agenda comum. É possível haver algum entendimento entre PT e PSDB, duas forças com algumas características em comum, mas que se digladiam?
Franklin -
No auge da crise, o Brasil correu o risco de perder uma coisa que ele construiu quase sem saber. E poderia ter perdido sem saber que construiu, que é uma agenda política comum nacional. Essa agenda tem cinco pontos. O primeiro é a democracia. Vamos resolver nossos problemas pela via democrática. Queremos eleições, queremos respeito aos direitos e garantias individuais. A oposição tem o direito de fiscalizar, mas não tem o direito de impedir o governo de governar. O governo tem o direito de governar, mas não tem o direito de impedir a opinião de se expressar. Se há uma direita no Brasil, o que se discute [risos], ela é mais democrática do que era antes. A esquerda é mais democrática do que era antes.

O segundo ponto é a moeda. Queremos estabilidade monetária. Houve uma época em achávamos que podíamos conviver com a inflação alegremente graças ao overnight, ao gatilho salarial, à escala móvel de salário. O preço estamos pagando até hoje.

Terceira questão: responsabilidade fiscal. Não basta o governante ir gastando e pendurar a conta no cabide ali em frente. Temos de ter seriedade com o dinheiro público. Quarta questão. Tudo isso é muito importante, mas é preciso crescer, gerar emprego, gerar oportunidades para a juventude. E a quinta é que não basta crescer. Temos de combater a exclusão social.

Essa agenda vem sendo construída ao longo do tempo. Parte dela foi construída durante a ditadura. Parte no governo Fernando Henrique Cardoso. Parte no primeiro governo Lula. Essa agenda corresponde a um pensamento de 70% a 80% das forças políticas do País. A vantagem disso é que a luta política pode se dar num terreno razoavelmente delimitado. Nessa crise, quase jogamos isso pela janela. Se a crise tivesse ido um pouquinho mais longe e se o povo brasileiro não tivesse dito "calma, pessoal, eu não quero perder essa coisa".

Folha - O que seria ter ido mais longe? A oposição patrocinar o impeachment do Lula? O Lula tentar dar uma guinada autoritária?
Franklin -
Sim. Por que não partiram para o impeachment? Por que o Lula não endureceu? Porque a sociedade disse: "Não quero". Temos essa agenda comum. Grandes programas que começam a dar certo são apoiados por muito mais partidos do que os que estão no governo. O Bolsa-família era tido como uma "Bolsa Esmola". Hoje, a maioria das forças políticas reconhece que é um vigoroso programa de transferência de renda que deve ser mantido e aprimorado. É uma conquista que não dá para abrir mão. O atual programa de melhoria da qualidade da educação incorpora coisas que vieram do governo FHC. Nos últimos 25 anos, construímos coisas em comum e quase jogamos fora na crise.

Folha - Lula se queixa de FHC ter sido muito duro com ele na crise. FHC se queixa de Lula não ter mantido a cordialidade a que ele deu início com a transição de governos. O senhor acha que eles deveriam se encontrar e conversar?
Franklin -
Os dois precisam conversar. Seria muito bom para os dois e para o País, mantendo as opiniões e divergências. Esse negócio de agenda comum não é aderir ao governo. A oposição está na oposição por vontade do eleitor. O governo está no governo porque o eleitor mandou. Cada macaco no seu galho. E, do seu galho, cada um pode conversar com o outro.

Comentário
Você acredita em tudo que "Grande Mídia" escreve e transmite? Ela pode condenar as pessoas, fazendo o papel do Judiciário brasileiro? A programação de cada emissora de TV tem respeitado a moral e os bons costumes das famílias? A imprensa é séria, imparcial e ética? O recente "apagão aéreo" enervou milhões de brasileiros, transformou-se em um sério problema de ordem política. A cobertura da imprensa foi isenta, ouviu todos os lados? E por que deixou de falar que os políticos do PSDB e PFL se encontravam com o comando de greve dos Controladores de Vôo para traçar planos para desestabilizar o Governo Lula. Por que a mídia omitiu vários fatos, com o único de desestabilizar o Governo Federal? O que vc não vê na grande mídia, vc vai ver no DESABAFO. Acesse: http://desabafopais.blogspot.com.
Um abraço,
Daniel Pearl | 08-04-2007 19:45:56

postado por MIRNA DE LIMA SOARES 11:46:58 AM
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