Ética e jornalismo
Em meio à violência dos últimos dias, outro tipo de violência era cometido nas páginas de
Veja. Esse tipo de agressão ao jornalismo tem se tornado bastante comum nos veículos de comunicação ultimamente. O assunto, que é tema de artigo publicado hoje no
Estadão, também era tema de discussão ontem (16/5) à noite no Observatório da Imprensa, na TVE. Vamos ao artigo do
Estadão.
Agressão às normas éticas
Raras vezes se terá visto em um país democrático um chefe de governo investir de forma tão contundente contra um órgão de imprensa, como fez o presidente Lula, ao tomar conhecimento da reportagem da revista
Veja em que ele aparece como titular de uma suposta conta no exterior. Mas é compreensível a inusitada reação do presidente, chamando o autor da matéria de "bandido, mau-caráter, malfeitor, mentiroso" e repetindo três vezes que a revista "chegou ao limite".
É incontestável que a publicação da reportagem colide com a responsabilidade ética que deve nortear as decisões de todo veículo de comunicação que pretenda ser levado a sério - sobretudo quando é grande a sua audiência.
Segundo a
Veja, o banqueiro Daniel Dantas, do Grupo Opportunity - que acusa o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares de haver sugerido que o grupo doasse entre US$ 40 milhões e US$ 50 milhões para contar com o governo na batalha pelo controle da Brasil Telecom -, teria montado um dossiê explosivo sobre membros da atual elite dirigente do País. Graças a um ex-agente da CIA, trabalhando para a empresa de espionagem Kroll Associates, Dantas disporia de dados sobre contas no estrangeiro do presidente Lula e das personagens mencionadas. Uma lista com nomes e valores, que teria sido produzida a mando do banqueiro, saiu na
Veja.
Numa nota publicada ontem, Dantas nega ter encomendado investigações sobre qualquer autoridade ou que tenha entregue a quem quer que seja papéis "que serviram à matéria da revista", aos quais, de resto, nem teria tido acesso. Admite apenas ter falado a um colunista da
Veja. Numa entrevista à
Folha de S.Paulo, declarou que a revista "mente quando diz que tinha um compromisso comigo para preservar meu nome como fonte, caso essas contas fossem verdadeiras. Isso nunca existiu". Em entrevista ao
Estado, o banqueiro soltou uma frase sibilina sobre as suas atribulações: "Se antes eu tinha acesso à cena, passei a enxergar os bastidores, que não posso comentar."
Também a
Veja, depois do veemente protesto do presidente, emitiu uma nota. Nela, sustenta que o material foi publicado "para evitar o uso das supostas contas como elemento de chantagem". À luz das manifestações de Dantas, a alegação soa no mínimo inconvincente.
A revista diz ainda que a reportagem não considerou a denúncia nem autêntica nem falsa, "por não dispor de meios suficientes para fazê-lo". Isso lembra o infame Dossiê Cayman sobre contas imaginárias de líderes tucanos, entre eles Fernando Henrique Cardoso. O dossiê foi noticiado com a ressalva de que se compunha de "documentos sem autenticidade comprovada". A
Veja acaba de incorrer na mesma falta grave.
A questão de princípio é inequívoca: por mais rigoroso o escrutínio com que a mídia deva tratar figuras públicas, em nome do interesse também público, acusações sem provas contra elas, ou sem ao menos indícios veementes, não podem ser propagadas - por definição. Do contrário, é denuncismo. A questão específica complementa a anterior. O fato de o PT e o governo Lula terem sido expostos como criadores ou cúmplices do megaesquema de compra de políticos não autoriza que se publique seja lá o que for que apareça a respeito de seus integrantes, sem o devido fundamento. Muito menos, com "inúmeras inconsistências", como a própria
Veja se referiu ao dossiê.
Pois, à parte o problema ético de fundo, esse tipo de noticiário leva água para o moinho dos quadrilheiros do mensalão e seus aliados, com a sua propaganda indecente de que os delitos da "sofisticada organização criminosa" apontada pelo procurador-geral da República não passam de fabricações da mídia, em complô com a oposição. O malefício é tanto maior quando o órgão de imprensa que divulga uma história claramente inverossímil com o objetivo de desintegrar o governo vinha se destacando pela publicação de denúncias bem fundamentadas, até agora não desmentidas.
Nestes 12 meses que se seguiram ao flagrante de corrupção nos Correios, a contribuição da imprensa para a elucidação dos fatos não foi menor do que o senso ético que ela quase sempre demonstrou.
Esse patrimônio não pode ser malbaratado pela divulgação de uma reportagem que agride as mais comezinhas normas éticas.
Comentário
Faz tempo que a
Veja está querendo fazer concorrência aos tablóides ingleses. As "denúncias" contra Lula são risíveis e carecem de um mínimo de base. Só a leva a sério a tropa da direita do PFL, liderada por Bornhausen.
Ricardo Brandau | 18-05-2006 09:10:33
Serra, pré-candidato a governador de SP
Como assim, bial?
Resolvi ler hoje um pouco sobre o pré-candidato a governador do Estado de São Paulo pelo PSDB, José Serra. Fui pesquisar na internet sobre ele e achei na Wikipédia sua biografia. Num dos trechos, fala sobre sua gestão à frente do Ministério da Saúde: "Críticos de sua gestão apontam o surgimento da epidemia de dengue como sua responsabilidade. Em 2002, ano de maior número de casos registrados de dengue no Rio de Janeiro até então, o Ministério da Saúde demitiu seis mil mata-mosquitos, repassando a verba para o Estado do Rio de Janeiro. O objetivo alegado do repasse foi combater a corrupção no órgão federal (SUCEN) que atuava no Estado".
Hoje, em visita a Rio Preto, durante entrevista, disse que a dengue é responsabilidade do município. É no mínimo curiosa a declaração. Quando era ministro, a responsabilidade era do Estado. Agora que quer ser governador repassa a responsabilidade para o município. Como assim, bial?
Foto de Roberto Barroso/ABr
Comentários
ohhh que massa hein!?
Leila Navarro |
Homepage | 12-05-2006 09:53:05
opa..muito bom seus textos continue assim falowwww
biel | 05-05-2006 09:17:10
A culpa não é do presidente (que nada sabe), nem do governador, nem do prefeito. De quem é, então? Do mosquito, oras...Esses políticos...
Ricardo Brandau | 04-05-2006 09:39:52
postado por MIRNA DE LIMA SOARES 6:30:23 PM
Comentários: