Enfim, um domingo legal na TV
Hoje, assisti à duas coisas na TV muito interessantes.
Uma delas foi o programa inteiro de Diego Maradona "Lo mejor del 10". A
SPORTV reprisou o programa de estréia, aquele com Pelé, inteirinho. O ex-goleiro argentino Sergio Goycochea ajudou Maradona a conduzir a apresentação do último dia 15/8.
Em primeiro lugar, falemos da parte técnica do programa. O estúdio era impecável: multiuso (transformou-se numa quadra de futevôlei, para se ter uma idéia), amplo, cheio de tecnologia (o programa termina com Maradona entrando por uma porta que se fecha e sobe com o "deus" argentino, a la Planeta da Xuxa) etc., etc.
Mas o que mais me chamou a atenção é que nem de longe Pelé, o Rei do Futebol, terá o carisma de Maradona. Em seu país, realmente, o argentino é idolatrado, respeitado, amado, venerado e tantos outros "ados". Em comparação a Pelé, no Brasil, fica longe, hein!. Além disso, Maradona fez uma estréia em alto estilo. Só levou fera para o palco.
Outro fato interessante na TV foi a coletiva de Antonio Palocci, ministro da Fazenda, para explicar o envolvimento de seu nome em denúncias de corrupção. Palocci fez o que todo petista esperava desde o primeiro momento dessa crise política envolvendo o Partido dos Trabalhadores (PT). Não ficou acuado. Fez um rponunciamento e, depois, enfrentou mais de duas horas de perguntas de jornalistas de todo o Brasil. Respondeu uma a uma, com segurança e tranqüilidade.
Se falou a verdade, o tempo dirá. Mas a imprenssão que deu é de que não deve e, por isso, não teme. Leia a seguir uma das análises feitas pela analista política da
Folha de São Paulo, Eliane Catanhêde.
Enfim, alguém reage
A crise política deixou Lula pequeno, isolado, perplexo. Mas, quando as denúncias chegaram a Palocci, o ministro da Fazenda cresceu, enfrentou, foi firme e convincente. Essa costuma ser uma diferença fundamental entre meros governantes e os estadistas, entre meros políticos e os líderes.
Palocci fez, enfim, o que Dirceu, Gushiken, Genoino e principalmente o próprio presidente da República deveriam ter feito desde o início: foi a público e defendeu-se categoricamente. Em vez de uma fala contrita ou chorosa, sem vida e sem argumento, o ministro fez um pronunciamento vigoroso e se submeteu a cerca de duas horas de perguntas livremente formuladas por jornalistas.
Respondeu uma a uma, com calma e segurança. Negou categoricamente a versão de seu ex-assessor Rogério Tadeu Buratti de que recebia R$ 50 mil de proprina na Prefeitura de Ribeirão Preto para entregar ao PT.
A reação tem efeitos imediatos muito importantes: ratifica a continuidade da política econômica, acalma a reabertura dos mercados amanhã, dá sobrevida ao governo e tira Lula, por enquanto, da mira principal. Além de deixar a oposição com apenas meio discurso.
A questão, porém, não pára aí. As investigações continuam, Buratti está vivo, sabe das coisas e apenas verbalizou o que há muito o mundo político comenta: que havia focos de corrupção em prefeituras petistas para abastecer os cofres do PT. No centro delas, a de Ribeirão Preto, com Palocci, e a de Santo André, com o prefeito assassinado Celso Daniel (aliás, a primeira opção para o Ministério da Fazenda de Lula).
Ou seja, hoje foi um grande dia para Palocci e para o governo, que saíram do isolamento e passaram a dar as cartas. Mas muita coisa ainda pode aparecer. O fundamental, agora, é que não surjam fatos ou provas que derrubem toda a força e a firmeza do ministro hoje. Entre ele e Buratti, um fala a verdade e o outro, a mentira. Os fatos e as provas é que vão desempatar o jogo.
Ou seja: o pronunciamento e a entrevista de Palocci foram o melhor momento do governo desde o início desse longo e tenebroso inverno de denúncias que atingiram a alma, os principais homens e a cúpula do partido de Lula. Mas a crise ainda está no meio. Nunca se sabe o dia de amanhã. E, o que é pior: as denúncias e as provas de amanhã.
Além disso, o Planalto não tem ainda como comemorar. A acusação de Buratti contra Palocci é apenas uma, entre um turbilhão de outras. E o Marcos Valério, as contas no exterior, o "mensalão", o Waldomiro, a cueca, o apartamento do Pizzolatto, o contrato da Telemar com o filho do presidente?
Palocci falou por ele. Mas as denúncias atingem a todo um partido e a todo um governo.
Eliane Cantanhêde é colunista da
Folha. Escreve para a
Folha On-line às quartas
E-mail:
elianec@uol.com.br
Comentário
Mirna,
A questão é que os argentinos (juro que não estou fazendo juízo e não é implicância, apenas observação empírica) têm verdadeira adoração por seus ídolos, como Gardel, Evita e Diego, tanto que até uma "religião" de seus adoradores existe. O brasileiro, com seu jeito mais escrachado, venera ídolos pontualmente e depois se "esquece" deles. Basta lembrar a comoção causada nas mortes de Getúlio, Tancredo e Senna, por exemplo. Mas à medida que os anos foram passando, eles viraram personagens históricos e, com rara exceções, apenas são lembrados no aniversário de sua morte ou de um título, no caso de Senna. E mantenho a convicção de que no futebol Maradona não fez metade do que Pelé. Quanto ao Palocci, a entrevista foi esclarecedora. Mesmo que esteja mentindo, ele veio a público rapidamente e aceitou ser questionado, mostrando firmeza e convicção, coisa que o chefe dele já deveria ter feito há muito tempo.
Ricardo Brandau