"Esse é um governo que não tem jogado a sujeira para debaixo do tapete"
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em pronunciamento em cadeia de rádio e televisão, exibido ontem, convocou a sociedade e suas lideranças a ajudarem o governo federal no combate à corrupção e falou das ações que o governo vem fazendo para enfrentar o crime organizado no País nestes dois anos e meio de mandato. O presidente ressaltou, também, que "a economia está em ordem, as exportações continuam crescendo, o risco Brasil continua caindo, o comércio e a indústria continuam empregando e uma grande quantidade de projetos sociais se estende por todo o território nacional".
Leia trechos do pronunciamento:
"... o corrupto deve ser sempre punido, e sempre de forma exemplar. Seja ele quem for, venha de onde vier, seja adversário ou aliado. Como todos sabemos, a corrupção é uma doença antiga. Mas muito podemos fazer contra esse câncer que corrói nosso país".
"...se tem um governo que tem sido implacável no combate à corrupção, desde o primeiro dia, é o meu governo. Nunca o Brasil viu tanta gente importante e poderosa sendo presa por corrupção e por fraude contra os cofres públicos como agora: empresários, juízes, delegados, políticos, policiais e funcionários públicos graduados que há anos, às vezes há décadas, agiam impunemente".
"Isso pode até dar a falsa impressão de que a corrupção tem aumentado, quando, na verdade, o que aumentou, e muito, foi o combate à corrupção e, em decorrência disso, aumentou naturalmente a quantidade de prisões e ações da polícia federal, que aparecem quase todos os dias na televisão e nos jornais".
"Nestes dois anos e meio já foram presas 1.006 pessoas acusadas de corrupção. E a nossa polícia desbaratou redes do crime, responsáveis por desvios de bilhões e bilhões de reais; esquemas que existiam há muitos anos e não eram investigados".
"...nunca a Polícia Federal foi tão livre, ágil e eficiente como agora. E nunca o Ministério Público teve tanta colaboração para cumprir as suas obrigações constitucionais".
"...o combate à corrupção é como uma casa onde há muito tempo não se faz uma limpeza de verdade, e onde muita sujeira está acumulada há muito tempo. Quando você começa a limpar, o que mais aparece é lixo: atrás da porta, debaixo dos móveis, dentro dos armários".
"Esse é um governo que não tem jogado a sujeira para debaixo do tapete. E garanto que, enquanto eu for o Presidente do Brasil, todos os órgãos do governo, os Ministérios, a Polícia Federal, todas as nossas instituições democráticas estarão, sempre, cada uma em sua área, empenhadas em examinar as denúncias, investigar, e se necessário for, punir exemplarmente".
"O Brasil tem maturidade para corrigir seus próprios erros. Além disso, feliz do país que tem uma imprensa livre e democrática que a tudo pode acompanhar, fiscalizar e investigar. Sou daqueles que acreditam que a verdade sempre prevalece, mais cedo ou mais tarde".
"Em momentos críticos como o atual, parece que tudo se nivela por baixo. Parece que todas as pessoas são iguais. Mas isso são apenas aparências".
"Uma investigação profunda, como a que está sendo feita pela Polícia Federal, e agora reforçada pela CPI, logo, logo, para o bem do Brasil, saberá separar o joio do trigo, o bem do mal, a verdade da mentira. Se houver gente que tenha cometido desvios de conduta, usarei toda a força da lei".
"Quando convidei um dos mais importantes juristas deste país, o doutor Marcio Thomaz Bastos, para ser ministro da Justiça, lhe entreguei também a missão de combater a corrupção com toda a firmeza e de todas as formas possíveis. Para isso, dobrei o orçamento da Polícia Federal e determinei que no meu governo a polícia não iria agir politicamente, prendendo os pequenos e fechando os olhos para os grandes".
"Cabe ao governo também se antecipar à corrupção, criando mecanismos de controle e de fiscalização para que ela não chegue a acontecer. É por isso que, logo que assumi o governo, criei um importante órgão, a Controladoria Geral da União, que, sob o comando do ministro Waldir Pires, já realizou mais de 7.500 auditorias em órgãos federais e tem feito o que nunca foi feito antes nesse país: fiscalizar os recursos federais que são repassados aos municípios brasileiros para que não haja corrupção. O resultado tem sido surpreendente: dos 700 municípios que já receberam auditoria, um grande número de prefeituras comete graves irregularidades de desvio de dinheiro, e já foram denunciadas ao Ministério Público".
"Criamos também o portal da transparência que permite, por meio da Internet, que qualquer cidadão ou cidadã saiba, a qualquer momento, de várias informações importantes que dizem respeito à sua cidade como, por exemplo, quanto de dinheiro público federal foi enviado para a educação, para a moradia e para a saúde, quantas são e quais os nomes das pessoas que recebem o Bolsa Família. Se você tiver interesse em conhecer essas informações, é só acessar agora mesmo o site na Internet (www.portaldatransparencia.gov.br). Não precisa nem de senha".
"É nossa intenção que o povo brasileiro seja estimulado a dar sua contribuição no controle e fiscalização. O Brasil precisa contar mais com a participação da sociedade e de suas lideranças no combate à corrupção".
"O que faz um ser humano honesto é o seu caráter, os valores que aprendeu com seus pais e que transmite para seus filhos, não o poder político que eventualmente recebeu numa eleição, e que é absolutamente passageiro".
"O meu compromisso com o Brasil, com o povo brasileiro e com as instituições democráticas, é um compromisso de longo prazo. A minha luta é para que o desenvolvimento seja sustentável e duradouro, pois só assim criaremos empregos, distribuiremos renda e faremos justiça social. Não há nada que vá me demover deste caminho".
"Tenho apenas dois anos e meio de governo, dois anos e meio, e durante esse pouco espaço de tempo, muita coisa já mudou neste país. A economia está em ordem, as exportações continuam crescendo, o risco Brasil continua caindo, o comércio e a indústria continuam empregando, e uma grande quantidade de projetos sociais se estende por todo o território nacional".
"...nos dois primeiros anos, arrumamos a casa e começamos a implantar os nossos projetos. Mas é exatamente daqui para frente que todo esse trabalho começa a aparecer e a mostrar seus resultados".
"...acima de interesses particulares está o interesse nacional, a preservação e o aperfeiçoamento das instituições. Tenho certeza que o Congresso Nacional saberá apurar todas as denúncias e, ao mesmo tempo, continuará trabalhando para que os projetos de interesse do Brasil sejam discutidos e votados. São esses os propósitos do meu governo, que estará sempre aberto para todos aqueles que estão buscando, verdadeiramente, o bem do nosso país e do povo brasileiro".
Leia a íntegra do pronunciamento:
http://www.info.planalto.gov.br/download/discursos/pr807.doc
O mensalão
Li hoje um artigo na Folha de São Paulo sobre o imbróglio em que o PT se meteu. Vale conferir. Antes, destaco um dos trechos:
"A comparação entre a implosão da base aliada do governo e a disputa de grupos rivais do tráfico por pontos de venda de drogas talvez seja a imagem mais apropriada para exprimir o momento atual."
Há ainda outro texto que merece ser lido. Vai na seqüência e do qual eu destaco outro trecho:
"Folha - O PT sempre se pautou pela questão da ética. Esse patrimônio está dilapidado?
Delcídio - Não. Nós não podemos generalizar. Os fatos pontuais não podem sinalizar que todo o partido é assim. Não é.
O PT está passando por tudo aquilo que os partidos de esquerda em vários países, especialmente na Europa, passaram. É uma reavaliação de procedimentos, de discurso e de práticas.
Folha - Vai haver baixas?
Delcídio - Acho que sim. Isso deve ocorrer. É do processo. Não é nenhuma curva fora do ponto."
postado por MIRNA DE LIMA SOARES 2:32:28 PM
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ESCÂNDALO DO "MENSALÃO"
As elites conspiram, mas a favor de Lula
FERNANDO DE BARROS E SILVA
EDITOR DE BRASIL
Se há alguma conspiração em curso, ela não visa, como quer a versão oficial propagada pelo PT e seus ideólogos, destituir o presidente da República do poder, mas antes o contrário. A verdadeira conspiração das elites é pela preservação de Lula -do "mensalão" e apesar do "mensalão".
Tal operação salva-vidas vem sendo encampada, vocalizada e reproduzida de diversas maneiras e por diferentes lideranças e grupos sociais, a ponto de se converter hoje numa fala comum de entidades tão antagônicas quanto o MST e os bancos, a CUT e a Fiesp.
Os donos do dinheiro podem até torcer o nariz para a política de juros -nem todos, não é banqueiros?-, mas estão em geral satisfeitos com os resultados do conservadorismo econômico e toleram o resto enquanto perceberem a pista desimpedida para o livre trânsito de seus negócios.
MST e CUT também estão mais ou menos representados pelo atual governo e têm seus interesses em parte contemplados. Sabem que não há hoje alternativa de poder capaz de satisfazer melhor suas demandas e boquinhas.
O PSDB, por sua vez, tem sido mais bombeiro do que incendiário da crise. Aos tucanos interessa sobretudo que Lula conclua seu mandato e chegue em 2006, se possível, do tamanho de um chaveiro, politicamente rendido. A eventual queda do governo viria acompanhada de uma imprevisibilidade que só tenderia a beneficiar outsiders e vocações populistas, à esquerda ou à direita.
Onde está então o golpismo, a trama sórdida das elites contra o líder operário? Que Delúbio Soares, num momento de descontrole emocional e com seus poucos recursos, tenha reavivado o fantasma fora de hora, quando o próprio governo já dava sinais claros de que está desembarcando dessa farsa, é mais um sintoma do divórcio em curso entre Lula e o PT -ou a "turma do Zé", como o presidente se refere aos homens de confiança da estrutura comandada até há pouco por Zé Dirceu.
Se Roberto Jefferson resolveu falar porque percebeu que o quarteirão estava sendo evacuado para que a bomba explodisse só no seu colo, agora é a área de Dirceu que está sendo isolada. A dinamite foi posta em suas mãos, e o governo não parece nem um pouco disposto a ajudá-lo. O ex-superministro fez escala na planície e dela foi rapidamente para o pântano do ostracismo, onde afunda.
Ao ser cuspido da Casa Civil, ainda tentou reinventar-se como líder de uma mobilização em "defesa do PT e da democracia", mas o esforço desesperado, de clara inspiração chavista, revelou-se logo um tiro n'água. Faltava-lhe o mínimo de lastro social. Afora o pequeno exército de aficionados que funciona, em qualquer circunstância, como massa de manobra, a militância petista se vê mergulhada na sua mais profunda crise existencial.
Desiludida, revoltada ou amuada, pergunta-se em casa: será que eles fizeram isso mesmo? Roubaram? Corromperam? Janene, Genu, Genoino, Delúbio, Mabel, Valdemar, Valério -uma procissão de nomes esquisitos que parecem amalgamados uns aos outros confunde o PT com o que há de pior na política nacional.
Depois do estelionato eleitoral, vem somar-se outro golpe, muito mais duro, que arrasta o PT e o governo para a vala da infâmia e macula a reputação de seus dirigentes, corroendo a imagem, a história e a identidade do partido.
A crise, que começou com a cena de um maço de R$ 3.000 sendo embolsado por um chefe de departamento, revelou-se logo, após as acusações de Jefferson, uma guerra entre quadrilhas. A comparação entre a implosão da base aliada do governo e a disputa de grupos rivais do tráfico por pontos de venda de drogas talvez seja a imagem mais apropriada para exprimir o momento atual.
Atropelado pelos fatos quando o foco migrou de Marinho para o "mensalão", ou passou do varejo para o atacado, o governo primeiro tentou abortar a CPI. Perdeu. Depois, lançou-se à tarefa de defender a imagem do PT. Perdeu de novo. A queda de Dirceu e a performance patética de Genoino no curso da crise são o melhor testemunho do tamanho do dilúvio que se abateu sobre o partido.
Entramos na fase da autofagia explícita. Só resta a Lula salvar a própria pele. Presente desde o início, a blindagem do presidente transformou-se agora na única questão que realmente importa: "Há algo podre no reino da Lulalândia, mas o rei está limpo" -essa a divisa em torno da qual estão mobilizados os esforços derradeiros do Planalto.
Um assessor do presidente chegou a confidenciar nesta semana que, diante de um cenário muito adverso, deve-se sacrificar o PT em benefício de Lula, porque com ele seria possível construir outro partido, enquanto sem ele estariam todos fritos.
Os lulistas contam ainda com o respaldo de parcela expressiva da mídia. Têm sido freqüentes os comentários de que o presidente errou porque delegou poder em demasia, manteve-se desinformado, foi, em resumo, omisso. Sob a aparência de condenação, essa idéia do chefe autista em meio à esbórnia é conveniente ao presidente, à falta de um álibi melhor.
Resta saber se a "turma do Zé" aceitará ser jogada ao mar. Em que condições e com quais contrapartidas? Seria o preço a pagar-o tal corte na carne a que se referiu o presidente- em troca de um acordão que permita a Lula chegar ao final do mandato?
Seja qual for o desfecho do escândalo do "mensalão", parece certo que o governo marcha ainda mais para a direita. E que ficará ainda mais refém das forças fisiológicas que alimentou.
Palocci não é hoje só o "homem forte" do governo. É o governante de fato. Está para Lula como o ministro FHC estava para Itamar Franco entre 1993 e 1994. As elites conspiram a favor e agradecem aliviadas. A esperança não venceu o medo. Virou lama e pó.
postado por MIRNA DE LIMA SOARES 2:32:12 PM
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Presidente da CPI dos Correios, petista cita equívocos do governo, diz que é preciso ser mais "proativo", mas poupa o presidente Lula
É erro desqualificar Jefferson, diz Delcídio
VERA MAGALHÃES
DO PAINEL, EM BRASÍLIA
LEILA SUWWAN
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Para se proteger, o senador Delcídio Amaral (PT-MS), 50, faz o sinal da cruz três vezes antes de presidir as sessões da CPI dos Correios. Não sem motivo. Além dos ataques da oposição, confronta seu partido com críticas francas.
Depois do quente depoimento de Roberto Jefferson (PTB-RJ) na última quinta, quando as denúncias de corrupção se ampliaram, concluiu que é um erro tentar desqualificar o deputado.
"Não é possível desqualificá-lo. O governo, inclusive, já tomou providências em relação a algumas denúncias feitas por ele. São coisas que o dia-a-dia comprovou", diz Delcídio, que também é o líder do PT no Senado.
Filiado desde 2001, o senador não hesita em apontar outros equívocos e problemas do governo, mas poupa o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Diz que é preciso vencer a "catatonia" diante da crise política e ser mais "proativo". Só assim o quadro eleitoral de 2006 não ficaria mais complicado para Lula.
Em retrospecto, outro reconhecimento: o governo deveria ter enfrentado uma CPI em 2004, quando eclodiu o caso Waldomiro Diniz, ex-assessor da Casa Civil gravado negociando propina numa função anterior, em 2002.
Um assumido "quase tucano", com trajetória política apadrinhada por tucanos e pefelistas, Delcídio condena o "revanchismo" contra o governo Fernando Henrique Cardoso e descarta a tese de parte do PT e dos movimentos sociais de que haveria um golpe em curso para atingir Lula.
"Conspiração de elite? Não entendo isso. Acho esse discurso totalmente "demodé". Você já imaginou nós, em pleno século 21, começarmos a falar de luta de classes de novo?", ironiza.
Senador em primeiro mandato, Delcídio diz ser um homem religioso e "comandado pelas mulheres". "Minha mulher [Maika] é brava e minha mãe é mais ainda. Ela fica vendo a CPI pela TV e brigando comigo: "Põe ordem nos trabalhos, corta a palavra daquele lá". E eu digo: "Mãe, não é assim'", diz ele, pai de três filhas.
Além de fazer o sinal da cruz, não deixa de tocar em uma imagem de santo quando vê uma nem de recorrer diariamente à leitura do salmo 91 da Bíblia, que diz: "Caiam mil ao teu lado, e dez mil à tua direita; tu não serás atingido". Ele falou à Folha na sexta.
Folha - A CPI dos Correios começou sob desconfiança de ser chapa-branca. Duas semanas depois, o estigma permanece?
Delcídio Amaral - A CPI está caminhando sem obstáculos. A imprensa está acompanhando permanentemente todos os passos. Nessas duas semanas, avançamos muito, não só nas oitivas mas nos requerimentos que foram aprovados. Ao mesmo tempo, apesar do enfrentamento, que é natural no clima de tensão, a CPI está trabalhando normalmente. Tem um debate mais acalorado aqui ou ali, mas avançou.
Folha - Rapidamente a CPI enveredou pelo "mensalão". Vai dar para evitar avançar nessa apuração?
Delcídio - Nos depoimentos, não dá para controlar. Existem requerimentos que tentam atropelar, não têm nenhuma ligação com a denúncia nos Correios, mas os requerimentos que foram aprovados até agora, mesmo os que podem ampliar o leque das apurações, têm ligação com os Correios. Assuntos relacionados com a denúncia do "mensalão" serão tratados na outra CPI [cuja instalação está prevista para a próxima semana]. Será um processo interativo, vamos avaliar o que compete a uma ou a outra.
Folha - É possível circunscrever a CPI aos Correios quando há denúncias contra várias estatais?
Delcídio - Nós estamos com duas semanas de investigações. Por enquanto, aprovamos requerimentos procurando tomar iniciativas ligadas ao fato gerador. Nossa prioridade agora é apurar as gravações, ver os interesses por trás delas, ouvir os diretores, analisar os contratos, mas é evidente que os fatos é que vão demonstrar a amplitude da investigação e, por isso, as próximas semanas serão de extrema importância.
Folha - O depoimento do deputado Roberto Jefferson não foi um divisor de águas?
Delcídio - O depoimento do Roberto Jefferson foi amplo. A intenção era discutir os Correios, mas entraram outros assuntos, alguns até pertinentes, como financiamento de campanha e um sem-número de questões ligadas à gestão pública.
Em relação a outros assuntos, como denúncias em Furnas e no IRB, temos de analisar e ver o que está no foco da CPI e o que não tem nada a ver.
Folha - A estratégia do PT foi tentar desqualificar Roberto Jefferson. É possível fazer isso diante de tantas evidências?
Delcídio - Não é possível desqualificá-lo. Tenho absoluta certeza de que nem todos na bancada do PT compartilham dessa estratégia. O governo inclusive já tomou providência em relação a algumas denúncias feitas por ele.
São coisas que o dia-a-dia comprovou. É um erro, neste debate, desqualificar o Roberto Jefferson. Temos de investigar se as denúncias são pertinentes ou não. A tática da desqualificação não resolve e muitos dos problemas que nós estamos enfrentando foi porque minimizamos determinadas questões que acabaram nos levando a essa situação.
Folha - O sr. se refere às denúncias contra o ex-subchefe da Casa Civil, Waldomiro Diniz?
Delcídio - O primeiro teste que o governo enfrentou foi o caso Waldomiro Diniz, ao qual poderia ter sido dado outro encaminhamento. Se tivéssemos feito a CPI há um ano e meio, quando o governo ainda era forte politicamente, antes das eleições municipais, muitos dos problemas atuais poderiam ter sido evitados, e o desfecho, diferente.
Folha - O governo não fica desmoralizado pelo fato de as investigações estarem sendo pautadas por Roberto Jefferson? Não deveria tomar a frente nas investigações?
Delcídio - O governo tinha de tomar a dianteira, ser mais proativo. O que está acontecendo é que estamos sempre agindo após os fatos. Essa é a razão de eu defender uma ação mais ostensiva não só na política quanto na área executiva, administrativa.
Folha - O presidente Lula tem a real dimensão da crise?
Delcídio - O presidente Lula percebe claramente o momento que estamos vivendo. Ele tem uma sensibilidade enorme, é bem informado. Não tenho dúvida nenhuma de que vai retomar o controle da situação.
Folha - O sr. acha que Delúbio Soares e Sílvio Pereira deveriam ser afastados da direção do PT?
Delcídio - Na última reunião do diretório, decidiu-se mantê-los. Eu sou obediente, acato as decisões do diretório, sou um homem de partido. Esse é um assunto controvertido na bancada, há opiniões divergentes, mas decidimos acatar a decisão do diretório.
Folha - Jefferson comparou o atual governo ao do ex-presidente Collor. O sr. acha que se vive uma situação política parecida?
Delcídio - São coisas diferentes. O governo, se agir, tem todas as condições de retomar o controle das ações, mas precisa fazer.
Folha - O governo fala em diálogo com a oposição, mas propõe CPIs para investigar o governo anterior. Isso ajuda?
Delcídio - Eu acho que esse campeonato de CPIs é uma perda de tempo, absolutamente inviável do ponto de vista prático, porque não temos nem parlamentares suficientes. Esse enxame de CPIs não vai trazer nenhum benefício para a sociedade.
O cidadão não é bobo. Ele mesmo vê que está havendo uma espécie de esgrima política. Acho que revanchismo não é bom para ninguém.
Folha - Alguns setores dizem que haveria um golpe em curso para derrubar o presidente Lula. O sr. concorda com a tese da conspiração das elites?
Delcídio - Não. Muitas coisas aconteceram em cima dos nossos próprios erros. Agora, conspiração de elite? Não entendo isso. Acho esse discurso totalmente "demodé". É sem sentido e não ajuda em nada. Você já imaginou nós, em pleno século 21, começarmos a falar de luta de classes de novo? É demais...
Folha - Como o sr. vê o panorama político deste momento de crise até o período pré-eleitoral?
Delcídio - Eu acho que nós precisamos agir. Nós não podemos ficar nessa catatonia em que estamos envolvidos porque efetivamente o quadro para 2006 vai se complicando cada vez mais.
Folha - O candidato do PT será o presidente Lula ou sua reeleição está inviabilizada?
Delcídio - Inegavelmente será o Lula. É a maior liderança que nós temos. Basta ver a leitura que a opinião pública faz dele.
Agora, é evidente, o momento exige determinação. Precisa de um timoneiro para que as coisas tenham rumo.
Folha - O PT sempre se pautou pela questão da ética. Esse patrimônio está dilapidado?
Delcídio - Não. Nós não podemos generalizar. Os fatos pontuais não podem sinalizar que todo o partido é assim. Não é.
O PT está passando por tudo aquilo que os partidos de esquerda em vários países, especialmente na Europa, passaram. É uma reavaliação de procedimentos, de discurso e de práticas.
Folha - Vai haver baixas?
Delcídio - Acho que sim. Isso deve ocorrer. É do processo. Não é nenhuma curva fora do ponto.
Folha - Mas, diante da opinião pública, o PT terá de mostrar uma nova cara?
Delcídio - O partido entra em 2006 tendo a consciência de que aprendeu muito e evidentemente com uma cara diferente, com a experiência de governo.
Folha - A oposição está superando os governistas na CPI?
Delcídio - Não. A CPI é um palco político. Você tem de ter ciência disso, da biografia de cada um e das vaidades. Você tem de fazer um estudo social e humanístico dos parlamentares para que a CPI possa funcionar. É uma aula de antropologia política.
postado por MIRNA DE LIMA SOARES 1:23:54 PM
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